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Barbie – Reflexões sobre Identidade

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* Em co-autoria com Priscilla Bueno

Barbie é um filme identitário.

Compreender todas as nuances da formação de uma identidade, marcada ainda por posicionamentos fortes e claros, não agrada a todo mundo mesmo.

Imagine quando buscam ainda a identidade de toda uma geração de mulheres e homens, em um mundo cor-de-rosa?

Pela ambição do que propõe, é natural dividir opiniões a ponto de gerar críticas de quem nem considerou assistir nem refletir sobre ele. Olhares desavisados enxergam fácil o enredo supostamente fraco, a linguagem caricata, o feminismo (no tom de quem usa o termo como crítica) exacerbado. Mas se engana mesmo é quem acha que esse não é um filme para crianças.

Este é um filme para todas as pessoas que queiram refletir sobre amadurecimento e autoconhecimento. E o poder que isso representa. Sobre como o cérebro expandido jamais volta ao seu tamanho original. Sobre repensar o envelhecimento e sobre o perigo de estereótipos. Sobre colocar em justaposição todas as mensagens contraditórias que estamos expostos como sociedade diariamente. 

E, mais que tudo, fala sobre tentar encontrar sua individualidade em um mundo que demanda que se seja perfeito, em qualquer um dos lados do espectro – o do matriarcado ou o patriarcado – em universos absolutamente antagônicos, mas que podem ser igualmente retratados como crônicas do absurdo.

Tudo isso, com boas doses de rir de si mesmos, em construções densas, mas com bom humor e leveza suficientes para que a mensagem seja ouvida como deve, acusando todas as incongruências de um presente em construção. Afinal, podemos ter saído da caverna de Platão, mas ela certamente ainda não saiu de nós.

Assim como Nemo mudou os filmes infantis, incluindo parte das piadas que só seriam entendidas pelos adultos, e depois Frozen trouxe as mulheres para um lugar de protagonismo, independente de um príncipe, Barbie dá um salto e traz personagens infantis para discutir o papel do feminino E do masculino numa sociedade em transição. E esse é somente o primeiro passo, pois há muito a ser construído ainda a partir deste ponto nos quesitos de poder e gênero. Não é a toa que antes do início de tudo, já diz a que veio: a referência a uma Odisséia no Espaço de Stanley Kubrick já demonstra que estaremos diante de uma reflexão evolutiva.

Impossível discorrer sobre o quanto a Mattel, Inc. foi corajosa e brilhante em propor essa nova categoria de filme, sem falar em detalhes sobre ele. A marca também saiu de sua caixa. Então, atenção aqui aos que não curtem spoilers: vários adiante.

Tudo começa quando Barbie começa a sentir uma voz dentro de si questionando se aquela vida sem sentir o sabor das coisas era mesmo tão perfeita, e sua primeira reação é resistir. Logo de cara nos vemos diante da grande questão existencial da vida, que é a morte, e de temas de saúde mental, com todo o incômodo que esses temas provocam. Já o primeiro sintoma físico chega com a metáfora perfeita: os pés agora não são mais esculpidos para o salto cor-de-rosa, e seus pés tocam, pela primeira vez, o chão.

Estar com os “pés no chão” é algo que ela repudia de início. A realidade é fria. O encaixe não é mais perfeito e agora voltar a usar o salto, dói. E quando lhe é oferecida a pílula vermelha de Matrix (representada por uma Birkenstock, que é anatomicamente muito mais adequada a um pé humano) ela não quer aceitar. Só que a pergunta é retórica, pois na verdade ela não tem escolha. Porque tem momentos na nossa vida em que crescer e encarar a vida real simplesmente NÃO É uma opção, é algo que se impõe. Quem nunca passou por isso?

E de onde nasce esse desconforto? Não da Barbie em sua caixa. Dentro da ilha, difícil ver a ilha, já dizia Saramago. Mas da pessoa a quem ela se conectava – em uma brilhante atuação de America Ferrera, não por acaso associada no nosso contexto a uma “mulher feia” na cultura pop. Na pele de Gloria, ela traz à luz a densidade e a verdade da mulher comum.

Barbie, a boneca que inspirou gerações de meninas a acreditar que era possível ser tudo, na visão de Gloria agora adulta, agora ampliava à máxima potência patamares ainda mais inatingíveis de perfeição, de Presidente a Prêmio Nobel, e isso tudo independente de sua cor, classe, idade ou tamanho. Tão simples. Aí entra a maior coragem da Mattel, em admitir que sim, deixaram-se dominar pelo capital e não mais por sua essência que agora vagava como um fantasma perdido por sua casa matriz (representada no filme por sua criadora, Ruth, a quem Barbie encontra esquecida e solitária numa sala). Criar um universo em que o empoderamento é total e a beleza é acolhida em todas as suas formas, até mesmo as mágicas, é oprimir todas as mulheres que sentem na pele a realidade oposta, e ignorar o poder legítimo do feminino como composição e não como oposição. E é nesse universo que Gloria acaba inclusive por se desconectar por completo de sua filha, que já nasce em um mundo em que a verdade já se encontra muito mais escancarada, em todos os seus tons.

Nesse mundo que não é de plástico, Barbie não é amada por todos como ela imaginava. E isso lhe provoca uma dor profunda. Ela acha que não aguenta isso e quer voltar para seu mundo protegido. Como acontece com algumas pessoas quando se deparam com a árida realidade da vida profissional – todos já conhecemos alguém com essa dificuldade, certo?

O ir e voltar do mundo real para a Barbielândia mostra a dualidade entre querer voltar para o mundo que supostamente parece mais confortável. Aí que entra a alegoria desconcertante de que, para voltar para Barbielândia, ela teria que “entrar na caixa”. Barbie inicialmente aceita, até com alegria, entrar de volta na caixa, mas quando coloca parte do seu corpo lá e sente as amarras (literais) em seus braços e pernas, ela é tomada por um desconforto e percebe que já não cabe mais ali. Quem a resgata em sua fuga pela liberdade? Ela mesma, aquela que um dia quis muito mais para ela do que um simples estereótipo, sua criadora.

Enquanto isso….Ken.

Ken é sobre alguém que foi convencido a acreditar que sua vida só faz sentido em função de outra pessoa. E essa pessoa joga na cara dele que a casa é dela, o carro é dela, que todas as noites são das amigas… ele é oprimido em um mundo onde ele só existe como um belo acessório. Ken transforma sua mágoa em revanche quando decide implementar o mesmo sistema que o massacrava, a seu favor. Não funciona. Dói nele igual. Sim, o feminismo não é sobre implementar o machismo ao contrário, já cansamos de falar né? E a partir daí que já dá para dizer que esse filme merece uma sequência. Como seria construir uma sociedade a partir de outras relações de poder e colaboração, respeitando as diferenças e conflitos necessários para sair de um status que não tá mais se encaixando? Quem sabe até Gloria perceberia o valor do “Ken” com o qual é casada, que não por acaso é demonstrado como alguém que pode parecer perdido, mas que luta para aprender sua língua.

Então passamos por uma sucessão de ironias que perpassam a tal síndrome do impostor, a reação ao assédio através da negação da sexualidade, a onipresença de homens na alta lideranças das empresas, a maneira como mulheres aprenderam a se inserir nesse universo egóico para sobreviver sem serem canceladas. O filme costura uma existência chocantemente normalizada. Por isso que não é difícil sair dele sem entender muitas das sacadas e camadas. Ao final, mesmo que o modelo ainda não seja perfeito, fica claro que o desequilíbrio na equidade de qualquer grupo torna o mundo mais difícil de se habitar, para todos os lados. Ninguém espera que sejam todos iguais, mas a luzinha que nos acende é forte e inequívoca: qualquer propósito de vida fica deturpado no exato momento em que são outras pessoas que nos dizem como ele deveria ser.

E, ainda mais incrível, é observar as personagens com clareza mental e perspectiva suficientes para acelerar a transformação: a Barbie Estranha, aquela que viveu todas as intempéries do mundo concreto e aprendeu a enxergá-lo como ele é e foi excluída por isso (não a toa é ela quem acolhe os demais esquecidos); e a própria Gloria que, agora aliada a sua filha, coloca o dedo em todas as feridas e todas as armas na mesa, de um espaço, finalmente, autêntico. Estranhas diante da sociedade plastificada, mas verdadeiras e conectadas ao que as move. Sobreviveram mesmo se sentindo inadequadas, frágeis, pequenas, sozinhas. Quem nunca se sentiu assim?

Agora a parte mais adorável: para deixar a vida de estereótipos e enfrentar nossa atualidade, Barbie é convidada a fazer uma reflexão sobre sua história e a entender que esta deve ser uma escolha consciente. Segurando nas mãos de outra mulher, uma mentora, que não a ilude, mas a apoia, ela RESPIRA. Abre a boca, vai além do sorriso perfeito, e agora tem voz.

Ela está viva, finalmente.

Com toda a beleza da vida, e com todas as suas dificuldades também.

Com tudo isso ainda saltitando na mente, como aquele glitter que não descola da pele, seria essa profundidade toda para crianças? Elas podem até não compreender o tamanho e a profundidade das mensagens agora: mas certamente, estão diante de um ponto de virada de como nossa sociedade se organiza, se movimenta e prospera. Quem viverá isso, são eles. Então, no fim, é para crianças, meninas e meninos, sim. Por elas.

Crescer, enfrentar a vida, sair da bolha. Se conhecer, achar seu lugar no mundo, mudar o mundo. Quem achou esse filme bobo, definitivamente não entendeu.
Ou ainda está achando que o mundo é perfeito, dentro da sua caixa.

Susana Arbex é autora do Best Seller  “SUA MARCA PESSOAL”

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